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Os Tuatha de Dannan ou Sidhe

sidheAlguns estudiosos de lendas e mitos irlandeses defendem a hipótese de que as fadas são remanescentes dos Tuatha de Dannan (filhos de Danu), vencidos em combate pelos milesianos invasores e encurralados nos vales e montanhas da Irlanda (o Mundo Subterrâneo?). Dotados de poderes mágicos, parece que conseguiram sobreviver até nossos dias.

Recentemente (ver nota), li um artigo que proclama que os Tuatha de Dannan chegaram à Irlanda provenientes da Escócia e que antes disso, eram “instrutores” ou mestres na Escandinávia. Se isto for realmente verdade, a crença nas fadas é muito mais antiga do que se possa supor, uma vez que os Tuatha de Dannan viveram na Irlanda muito antes dos celtas.

Segundo o mesmo artigo, os Tuatha de Dannan chegaram ao norte da Irlanda vindos da Escócia num dia que posteriormente foi denominado Beltaine (1º de Maio). Após queimarem os seus navios, eles se envolveram numa nuvem de invisibilidade mágica e marcharam para o interior por três dias. Graças à sua invisibilidade, mantiveram-se incógnitos dos habitantes (os Firbolg), até alcançarem um local chamado Sliabh-an-lerainn, a Montanha do Ferro, onde então foram vistos pela primeira vez.

Os Tuatha de Dannan eram vistos como pessoas sábias e robustas, com uma densa cabeleira e aparência iluminada. Compunham um pequeno mas extremamente organizado grupo de líderes e artesãos muito especializados. Deles é dito ainda de terem ensinado aos irlandeses técnicas agrícolas e de acasalamento animal.

É interessante observar que de acordo com as tradições a respeito dos Tuatha de Dannan, passaram sete anos no norte da Escócia antes de chegarem à Irlanda, em Dobhar e Iardahar. Antes da Escócia, estiveram em Lochlonn, que se localizava na Escandinávia. Em gaélico moderno, Lochliaimm é um termo que se refere à Dinamarca (em seu idioma, Danmark, ou a terra do povo de Dan).

Aparentemente, os Tuatha de Dannan eram bem-vindos na Escandinávia, estabelecendo-se em quatro cidades, onde ensinavam aos mais jovens. Tendo em vista o que ensinavam, é provável que tenham vindo de um local chamado Achaia.

Embora seja uma linha de pensamento muito tênue, há uma região chamada Achaiyah ao norte do Monte Hermon. A Síria é o local mais provável de ter abrigado, sob o nome de Kharsag, um povo chamado Annage, ou “Os Iluminados”, grandes deuses e mestres dos sumérios e correspondem aos deuses relacionados ao primórdios da civilização no vale da Mesopotâmia.

Os sumérios governaram esta região desde pelo menos o quarto milênio a.e.c. e uma aura de mistério paira sobre o súbito desenvolvimento tecnológico observado junto a um povo rústico e rude, recém saído do neolítico. Este povo atribui o seu desenvolvimento repentino à chegada de deuses-instrutores, que podem ter sido o que restou de uma cultura mais antiga em franco declínio decidida a passar os seus conhecimentos e depois continuando sua jornada através do sul da Europa, ensinando aos gregos da mesma maneira que os Tuatha de Dannan fizeram com os antigos irlandeses. Pelos gregos, são lembrados como deuses, que vieram do Monte Olimpo… E podem ter se deslocado adiante, espalhando seus conhecimentos através da França, Alemanha e Escandinávia, novamente sendo lembrados como um panteão de deuses, até cruzarem a Bretanha, atingirem a Escócia e posteriormente, a Irlanda.

Podemos agora pensar nas Fadas de uma maneira mais tradicional.

Tuatha de Dannan ou Sidhe

Será que são um mesmo povo? É bastante difícil estabelecer onde a crença nas Fadas tenha se iniciado. Na Irlanda, muitos estudiosos afirmam que os habitantes primitivos e seus deuses, antes da chegada dos celtas, são de fato os ancestrais dos Sidhe.

Alguns dos remanescentes dos Tuatha de Dannan se tornaram uma raça à qual passaram a denominar como Sidhe.

A crença nos Sidhe é parte da religião pré-cristã que sobreviveu por milhares de anos antes de ser inteiramente removida do solo e das mentes dos escoceses e irlandeses. Quando os primeiros celtas (os filhos de Mil) chegaram à Irlanda, descobriram que os Tuatha de Dannan (os filhos da deusa Danu) ainda possuíam o controle sobre o território. Os filhos de Mil não admitiam essa possibilidade e os combateram até serem enviados para os Mundos Subterrâneos, de onde se diz que certos locais são sagrados até nossos dias, especialmente certos fontes e montanhas.

Os Tuatha de Dannan deixaram tão fortes impressões que existem referências a eles em diversos manuscritos. Um deles (O Livro de Dun Cow) diz que se assemelhavam a deuses e não eram deuses, significando-se que eram alguma coisa entre ambos. Mais adiante, o mesmo livre coloca que parecia que eles (os Tuatha de Dannan) tenham vindo do céu, tendo em conta a sua inteligência e grande conhecimento.

A presença deste povo sábio e mágico deixou fortes impressões e lembranças que nem o cristianismo conseguiu apagar. Os Sidhe foram objeto de estudo e várias argumentações da parte de São Patrício, tendo ele mesmo visto e presenciado fadas entrando e saindo da caverna de Cruachan.

Vários Sidhe são também remanescentes dos velhos deuses da terra, associados às varias etapas que vão do plantio à colheita. Contudo, são os Tuatha de Dannan que se vingam dos filhos de Mil destruindo seu trigo e a qualidade do leite. Dessa maneira, os filhos de Mil se viram forçados a fazer um trato com os primeiros, o que originou a oferenda de leite e manteiga para o Bom Povo.

Uma característica própria dos Tuatha de Dannan é que existem em tribos distintas distribuídos em territórios, governados por reis e rainhas. Curiosamente, esta é também a organização da velha aristocracia irlandesa, que por sua vez, é um reflexo do sistema de castas dos celtas. Muitos se referem a eles (as fadas, na Irlanda) como a “pequena nobreza”. Diz-se que têm seus palácios, onde festejam e tocam música. Mas também combatem entre as tribos vizinhas.

De um modo geral, as fadas parecem se distinguir, por essas características, inclusive dos filhos de Mil, embora façam parte do folclore das raças pré-gaélicas e do panteão de seus deuses associados às localidades, como é o caso de “geancanach”, associado ao Ulster e “cluricaun”, ao Munster. Não podemos nos esquecer que entre eles se encontra ainda o “leprechaum”, uma pequena criatura do qual se diz saber da localização de um pote de ouro guardado pelo povo das fadas. O leprechaum se encontra na memória popular desde há muito tempo, podendo entretanto estar associado aos Firbolg, que eram uma raça de anões.

O folclore popular diz que os Sidhe costumam ser vistos caminhando em horários próximos ao por ou ao nascer do sol. Há muitas estórias que os associam a caminhantes ou viajantes noturnos e de como eles eventualmente carregam consigo os mortais em suas jornadas. Há Sidhe que se portam como guardiões de locais sagrados, especialmente em lagos da Irlanda e Escócia. Outros dividem os Sidhe em categorias associadas em espíritos das florestas, das águas e do ar, como os elementais.

Com um olhar mais atento, podemos notar que os reis e rainhas do reino das fadas se assemelham aos deuses e deusas dos povos antigos ligados ao paganismo e ao culto da terra. A chegada do catolicismo à Europa afastou da visão os deuses dos celtas, que haviam se fundido aos deuses pré-gaélicos e com isso, legando os Sidhe e as Fadas aos planos mitológico.

Porém, devemos ter em mente que nem todos os Sidhe provém dos Tuatha de Dannan e nem todo Tuatha de Dannan é um Sidhe.

O interessante entretanto é que a crença nas fadas permanece muito viva entre nós (em todo o mundo, nas mais diversas culturas, e não apenas no norte da Europa) e é o foco de uma das linhas seguidas pela wicca.

Nota: Este artigo foi publicado originalmente para o premiado site Arte Antiga, em 01/04/2005.

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