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Criação e Queda

O tal do Pecado Original sempre foi de difícil compreensão e entendimento para mim.

Vamos aos fatos? Um tal de Deus ou Eterno, no original hebraico, criou o mundo conhecido, incluindo a fauna, a flora e o casal humano. Foram então deixados num Éden paradisíaco com uma única condição: não poderiam comer do fruto de duas árvores lá existentes. Uma das árvores era da Vida Eterna; a outra, do Conhecimento do Bem e do Mal. Seus frutos eram proibidos!

Quando criados, Adão e Eva, o casal humano, governavam os animais e falavam com eles. Aí surge Lúcifer em forma de serpente e estimula Eva a provar do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Após prová-lo, Eva o compartilha com Adão e ambos constatam que estavam nus.

Como sabemos, o casal foi expulso do Paraíso com um anjo deixado de guardião às suas portas. E assim surgiu o Pecado Original.

Primeira questão: será que foi mesmo Deus que criou o mundo? Em sua máxima glória, perfeição e pureza, para que o faria?

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É mais razoável considerar que ele tenha gerado as condições e os meios para que a Criação se processasse. Para isso, teria de contar com agentes intermediários que dessem cabo da obra. Esse papel caberia aos anjos, que não são mencionados no relato da Criação e são motivo de controvérsias entre teólogos. Este ponto de vista é compartilhado por muitas correntes místicas de origens e culturas diferentes através de seus mitos e cosmogonias. Na mitologia grega, por exemplo, os titãs são os verdadeiros agentes da criação de Ourannos. Considerados hereges, os cátaros preconizaram que a Criação se dera por meio do Demiurgo. Os platônicos e os cabalistas falam de uma Criação através de emanações sucessivas. Estas visões distanciam a criação imperfeita de Deus, perfeito. O Éden teria então o papel de ser um plano intermediário entre os planos divino e o material.

Conhecimento e Luz são intercambiáveis e parecem representar um único princípio. Deus não colocou aquelas árvores à toa. Simbolicamente, as árvores representam o caminho de ascensão aos planos divinos. Luz é energia e assim, o propósito de Deus foi ganhar energia através do uso do conhecimento. Se ele é perfeito, não há razão para ele não ter concebido a queda do Éden no plano da matéria. Desta maneira, os anjos que acompanharam Adão e Eva estavam cumprindo uma missão e não se rebelando, como quer o catolicismo.

Portanto, não há pecado, mas sim a necessidade de retornar à Luz. Afinal, as trevas são apenas a ausência de Luz.

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Pecado Original?

Desde os tempos do catecismo que me questiono sobre a doutrina do pecado original. Confesso que por mais que tenha lido a respeito, nunca compreendi como uma criança possa carregar a partir de seu nascimento uma culpa que remonta aos tempos bíblicos. Particularmente considerando que, para a Igreja, não existe a reencarnação.

Se a reencarnação fosse levada em conta, há como dizer que a Alma que ocupa o corpo daquele bebê carrega as culpas de vidas anteriores. Mas A Igreja aposta na “ressurreição da carne”, como dito em seu Credo, embora Paulo faça alusões à reencarnação da Alma (ou do Espírito).

Primeiramente é preciso considerar que as duas Criações relatadas em Gênesis 1 e 2 foram escritas em ocasiões diferentes, Gênesis 2 é anterior e corresponde a um período em que o povo judeu era nômade e vivia no campo, por isso é que se trata de uma visão mais mitologicamente elaborada e muito menos simbólica que a descrita em Gênesis 1, conforme nos ensina Gerhard Von Rad.

A clássica estória conta que Deus deixou o Éden para que fosse administrada e cuidada por Adão e Eva, com vários privilégios e que com uma única condição: que não tomassem do fruto de duas árvores que lá haviam. Contudo, uma serpente ardilosa tentou Eva com o fruto de uma das árvores, a do conhecimento do bem e do mal. Como sabemos, depois de experimentar, foi levar para Adão, que (segundo a Bíblia) relutou para experimentar a tal da maçã.

Bem, eles perceberam que estavam nus, acabando por serem expulsos do Paraíso antes que experimentassem do fruto da outra árvore.

Os gnósticos são os precursores dos psicólogos e tem uma versão mais interessante deste episódio. Mas primeiro, é preciso lembrar que a serpente também aparece no caduceu de Hermes, associada ao conhecimento. Sob esta ótica, foram tentados não por um enviado de Saitan (opositor, adversário), mas sim pela própria busca de si mesmos, uma vez que se deram conta de sua verdadeira condição (nus). No entanto, o preço que pagaram foi a capacidade (ou a necessidade) de fazer escolhas, opções e emitir julgamentos.

Esta é a origem do pecado original. Se eles se mantivessem ignorantes e aceitassem as coisas como elas são, talvez ainda estivessem no Paraíso. Adão e Eva personificam dois tipos de busca: o primeiro representa a busca lógica e racional, enquanto Eva corresponde ao aspecto intuitivo e irracional que, na maior parte das vezes, leva ao insight que diferencia um raciocínio comum de um original.

Porém, graças a este episódio, inúmeras injustiças foram cometidas à mulher, consideradas inferiores porque culpadas pela expulsão do Éden.

Quando Eva provoca Adão com a maçã, estimula-o com possibilidades e opções fora dos padrões oferecidos por Deus. De certa maneira, se Deus é mesmo onisciente, ele deveria saber que, em algum momento, Adão e Eva provariam do fruto daquela árvore. Mesmo assim, nada justifica o tal do pecado original.

A expulsão do Paraíso representa o fardo de tomar decisões, antes desnecessárias porque, em sua pureza e inocência, não precisavam se preocupar com nada para sua existência.

Bem, pode-se ainda dizer que se trata de uma questão de fé… Ainda assim, a fé não pode ser uma desculpa para tudo o que desafia a lógica simples ou para a qual não é possível obter uma explicação comum.