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Resenha: A Origem de Deus, de Laurence Gardner

O mundo ocidental parte da premissa da existência de Deus de uma forma automática. A maior parte dos indivíduos já nasce dentro de um sistema fechado do qual Deus é parte integrante, sem questionar quem é e porque de sua crença.

As principais religiões do Ocidente, judaísmo, cristianismo e islamismo, partem do Antigo Testamento para estruturar os dogmas que resultaram no sistema de crenças postulados e adotados.

A primeira pergunta do autor é se não houvesse o Antigo Testamento. Tomaríamos conhecimento da existência de Deus? Para responder a esta questão, faz uma análise de todas as estórias do Antigo Testamento, suas origens e correlações. Indica qual a personalidade deste Deus, que embora designado de misericordioso, se apresenta frequentemente impiedoso e muito cruel.

Mostra que a maior parte do que se encontra em Gênesis é uma transcrição e adaptação de estórias bem mais antigas, registradas em tabuletas na Suméria. Os judeus devem ter tomado contato com elas quando de seu cativeiro na Babilônia.

Um dos aspectos interessantes apontados pelo autor é que, no episódio de expulsão do Éden, há uma passagem que diz “agora serão semelhantes aos deuses”, no plural. Portanto, nesta narrativa, não há um único deus, como é postulado no monoteísmo. E outro ponto de destaque é que até Abraão, deus se manifestava fisicamente, tornando-se imaterial e uma entidade metafísica após este tempo.

Quando se refere à vida de Moisés, estabelece relações com outros mitos da região, muito mais antigos. Contudo, o autor, em referência a uma outra obra sua (Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada), prefere apontar a sua relação com o Faraó Amenhotep IV/Akhenaton.

Um dos focos de Gardner sobre o Antigo Testamento é apontar como as genealogias foram manipuladas para justificar a unção de certos reis. Esta questão é abordada repetidas vezes, toda vez que ocorre em alguma passagem da Bíblia, incluindo-se aqui o Novo Testamento.

No início do livro, o autor tenta estabelecer a identidade de deus. Relaciona El, dos canaanitas, com Marduk, dos babilônios, Enlil, dos sumérios ao Yahveh de Abraão e Moisés. Esta opinião não é partilhada por Zechariah Sitchin, considerado a maior autoridade em história da Suméria e tradutor dos tabletes de argila em escrita cuneiforme.

Porém o autor perde-se ao final quando escreve que Deus é uma crença necessária, fazendo alusões a Descartes e Pascal. Na verdade, o epílogo é um conjunto de sofismas.

As referências bibliográficas são extensas, como todo livro que escreve. No entanto, falta-lhe profundidade. Várias de suas proposições são contestáveis. Ao invés de responder a pergunta inicial, o autor prefere discorrer sobre as genealogias adaptadas conforme os interesses políticos da época.

Algumas de suas observações mostram-se intrigantes e mereciam outras perguntas. Porque deus se afastou dos judeus depois da época de Abraão? O que aconteceu com ele para que não caminhasse mais entre os homens? Para onde foi? Uma vez que Gênesis é uma compilação de textos muito mais antigos, estas respostas poderiam ser encontradas nos originais.

Pouca atenção foi dada ao fato de tanto o Antigo como o Novo Testamento contarem com uma fase final de redação dedicada ao Fim dos Dias (ou Apocalipse). Alguns profetas chegaram a entrar em contato psíquico com esta entidade imaterial divinizada. Enoque, porém, por duas vezes, subiu aos céus e esteve (via anjos) em contato com Deus.

Outro tema não desenvolvido adequadamente é o de Caim. Após a morte de Abel, Deus o marcou (e a sua descendência) para que não fosse morto. Qual seria esta marca? Deveria ser uma marca importante para que Deus pudesse acompanha-lo e aos seus, garantindo a sua sobrevivência. Seria algum tipo de manipulação genética? Para onde foram?

Há um lapso de 200 anos entre o final do Antigo Testamento e o início dos Evangelhos. Mas a esta altura, o autor já deveria ter pedido seu interesse em escrever, pois dedica pouco tempo a esta parte da Bíblia.

Como todo livro de Laurence Gardner, o ponto alto é a sua bibliografia. Ainda, os tópicos abordados. Contudo, não conte com uma resposta definitiva para a questão título da obra.

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