Linguagem dos Anjos

Aceita-se que a linguagem tenha se desenvolvido em algum momento no Neolítico, passando a ser registrada como escrita (visão acadêmica) em cerca de 3.200 aec, na Mesopotâmia.

Com a invenção da imprensa, o processo de registrar o conhecimento tornou-se mais simples, dispensando os escribas copiadores, particularmente os dos mosteiros.

Meu avô me ensinou a ler por volta dos quatro anos de idade. Com cinco, eu já começava a escrever. Meu universo se ampliou vertiginosamente à medida que lia os livros disponíveis e aqueles que busquei em bibliotecas.

Graças às leituras variadas, o meu vocabulário e domínio da linguagem se tornaram tão extensos a ponto de começar a elaborar raciocínios cada vez mais complexos. Consequentemente, passei a escrever, registrando-os. Meu primeiro artigo foi publicado quando tinha quinze anos e resultou em prisão, por ser considerado inadmissível (estudava na EsPCEx e o artigo versava sobre a relação da explosão demográfica e o potencial de crescimento da produção de alimentos).

Escrevo e publico desde então. Já quase fui preso em duas outras oportunidades (estudei em duas ocasiões em escolas militares) por minhas reflexões e pontos de vista. Tornei-me professor e o volume escrito se tornou ainda maior. Continuo lendo e escrevendo muito.

E, numa destas leituras, deparei-me com uma frase simples de Rudolf Steiner, que menciona que os anjos não sabem ler nem escrever. Meu mundo caiu por terra diante de uma constatação desta natureza. Absurdamente óbvia, esta afirmação contém implicações contundentes.

  • Defendo o ponto de vista que o universo se manifesta através de um código binário: “O um gera o dois, que gera todas as coisas”, como preconiza o Tao.
  • Uma vez que exista linguagem (binária) e não necessariamente uma escrita, o nosso destino não está escrito nas estrelas.
  • A linguagem arcangélica de John Dee é uma falácia, bem como, seu sistema de magia (eu já suspeitava disso estudando a sua biografia).
  • A história do surgimento das letras hebraicas, das runas e outros alfabetos tornam-se mitos.
  • Os textos sagrados sempre se referem ao poder do som ou das palavras enquanto força criativa ou geradora. Palavras são resultantes de pensamentos, que são carregados de imagens. Assim, o elemento importante torna-se a imagem, que se combina com o pensamento, expresso através de vocábulos.
  • No meio místico, muita ênfase é dada ao estudo dos símbolos, particularmente aqueles resultantes de figuras geométricas (ponto, círculo, reta, cruz, triângulo, quadrado, etc…)

Estas são apenas algumas primeiras conclusões. Você encontrará outras e peço a gentileza de incluí-las nos comentários. Mas o ponto chave é que as palavras sem dúvida tem poder, mas uma vez escritas, este poder se engessa e se perde.

Em relação à linguagem, a escrita é como uma escultura, sem flexibilidade e maleabilidade. Ao contrário, a palavra, quando proferida, vocalizada, tem sonoridade, tonalidade e portanto, o poder harmonizador e criador, seja anabólico ou catabólico.

Quer um exemplo? Se você liga por engano para alguém e falar coisas indevidas, poderá facilmente se desculpar. O que acontece se enviar uma mensagem indevida de texto pelo WhatsApp à pessoa errada? Dependendo do que tiver enviado, pode ser bem difícil se desculpar. E o assunto ainda renderá outras consequências.

Isto ocorre porque as palavras escritas não tem entonação. Ou seja, não portam as emoções que distinguem a direção da conversa. Bem… Diz-se que a energia do universo é o Amor, um tipo particular de emoção. Portanto, a linguagem dos anjos deve se assemelhar a cantos. No Apocalipse, tocam trombetas; em outras passagens, prestam louvor ao Eterno através de cânticos…

Fechou?

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Os Tuatha de Dannan ou Sidhe

sidheAlguns estudiosos de lendas e mitos irlandeses defendem a hipótese de que as fadas são remanescentes dos Tuatha de Dannan (filhos de Danu), vencidos em combate pelos milesianos invasores e encurralados nos vales e montanhas da Irlanda (o Mundo Subterrâneo?). Dotados de poderes mágicos, parece que conseguiram sobreviver até nossos dias.

Recentemente (ver nota), li um artigo que proclama que os Tuatha de Dannan chegaram à Irlanda provenientes da Escócia e que antes disso, eram “instrutores” ou mestres na Escandinávia. Se isto for realmente verdade, a crença nas fadas é muito mais antiga do que se possa supor, uma vez que os Tuatha de Dannan viveram na Irlanda muito antes dos celtas.

Segundo o mesmo artigo, os Tuatha de Dannan chegaram ao norte da Irlanda vindos da Escócia num dia que posteriormente foi denominado Beltaine (1º de Maio). Após queimarem os seus navios, eles se envolveram numa nuvem de invisibilidade mágica e marcharam para o interior por três dias. Graças à sua invisibilidade, mantiveram-se incógnitos dos habitantes (os Firbolg), até alcançarem um local chamado Sliabh-an-lerainn, a Montanha do Ferro, onde então foram vistos pela primeira vez.

Os Tuatha de Dannan eram vistos como pessoas sábias e robustas, com uma densa cabeleira e aparência iluminada. Compunham um pequeno mas extremamente organizado grupo de líderes e artesãos muito especializados. Deles é dito ainda de terem ensinado aos irlandeses técnicas agrícolas e de acasalamento animal.

É interessante observar que de acordo com as tradições a respeito dos Tuatha de Dannan, passaram sete anos no norte da Escócia antes de chegarem à Irlanda, em Dobhar e Iardahar. Antes da Escócia, estiveram em Lochlonn, que se localizava na Escandinávia. Em gaélico moderno, Lochliaimm é um termo que se refere à Dinamarca (em seu idioma, Danmark, ou a terra do povo de Dan).

Aparentemente, os Tuatha de Dannan eram bem-vindos na Escandinávia, estabelecendo-se em quatro cidades, onde ensinavam aos mais jovens. Tendo em vista o que ensinavam, é provável que tenham vindo de um local chamado Achaia.

Embora seja uma linha de pensamento muito tênue, há uma região chamada Achaiyah ao norte do Monte Hermon. A Síria é o local mais provável de ter abrigado, sob o nome de Kharsag, um povo chamado Annage, ou “Os Iluminados”, grandes deuses e mestres dos sumérios e correspondem aos deuses relacionados ao primórdios da civilização no vale da Mesopotâmia.

Os sumérios governaram esta região desde pelo menos o quarto milênio a.e.c. e uma aura de mistério paira sobre o súbito desenvolvimento tecnológico observado junto a um povo rústico e rude, recém saído do neolítico. Este povo atribui o seu desenvolvimento repentino à chegada de deuses-instrutores, que podem ter sido o que restou de uma cultura mais antiga em franco declínio decidida a passar os seus conhecimentos e depois continuando sua jornada através do sul da Europa, ensinando aos gregos da mesma maneira que os Tuatha de Dannan fizeram com os antigos irlandeses. Pelos gregos, são lembrados como deuses, que vieram do Monte Olimpo… E podem ter se deslocado adiante, espalhando seus conhecimentos através da França, Alemanha e Escandinávia, novamente sendo lembrados como um panteão de deuses, até cruzarem a Bretanha, atingirem a Escócia e posteriormente, a Irlanda.

Podemos agora pensar nas Fadas de uma maneira mais tradicional.

Tuatha de Dannan ou Sidhe

Será que são um mesmo povo? É bastante difícil estabelecer onde a crença nas Fadas tenha se iniciado. Na Irlanda, muitos estudiosos afirmam que os habitantes primitivos e seus deuses, antes da chegada dos celtas, são de fato os ancestrais dos Sidhe.

Alguns dos remanescentes dos Tuatha de Dannan se tornaram uma raça à qual passaram a denominar como Sidhe.

A crença nos Sidhe é parte da religião pré-cristã que sobreviveu por milhares de anos antes de ser inteiramente removida do solo e das mentes dos escoceses e irlandeses. Quando os primeiros celtas (os filhos de Mil) chegaram à Irlanda, descobriram que os Tuatha de Dannan (os filhos da deusa Danu) ainda possuíam o controle sobre o território. Os filhos de Mil não admitiam essa possibilidade e os combateram até serem enviados para os Mundos Subterrâneos, de onde se diz que certos locais são sagrados até nossos dias, especialmente certos fontes e montanhas.

Os Tuatha de Dannan deixaram tão fortes impressões que existem referências a eles em diversos manuscritos. Um deles (O Livro de Dun Cow) diz que se assemelhavam a deuses e não eram deuses, significando-se que eram alguma coisa entre ambos. Mais adiante, o mesmo livre coloca que parecia que eles (os Tuatha de Dannan) tenham vindo do céu, tendo em conta a sua inteligência e grande conhecimento.

A presença deste povo sábio e mágico deixou fortes impressões e lembranças que nem o cristianismo conseguiu apagar. Os Sidhe foram objeto de estudo e várias argumentações da parte de São Patrício, tendo ele mesmo visto e presenciado fadas entrando e saindo da caverna de Cruachan.

Vários Sidhe são também remanescentes dos velhos deuses da terra, associados às varias etapas que vão do plantio à colheita. Contudo, são os Tuatha de Dannan que se vingam dos filhos de Mil destruindo seu trigo e a qualidade do leite. Dessa maneira, os filhos de Mil se viram forçados a fazer um trato com os primeiros, o que originou a oferenda de leite e manteiga para o Bom Povo.

Uma característica própria dos Tuatha de Dannan é que existem em tribos distintas distribuídos em territórios, governados por reis e rainhas. Curiosamente, esta é também a organização da velha aristocracia irlandesa, que por sua vez, é um reflexo do sistema de castas dos celtas. Muitos se referem a eles (as fadas, na Irlanda) como a “pequena nobreza”. Diz-se que têm seus palácios, onde festejam e tocam música. Mas também combatem entre as tribos vizinhas.

De um modo geral, as fadas parecem se distinguir, por essas características, inclusive dos filhos de Mil, embora façam parte do folclore das raças pré-gaélicas e do panteão de seus deuses associados às localidades, como é o caso de “geancanach”, associado ao Ulster e “cluricaun”, ao Munster. Não podemos nos esquecer que entre eles se encontra ainda o “leprechaum”, uma pequena criatura do qual se diz saber da localização de um pote de ouro guardado pelo povo das fadas. O leprechaum se encontra na memória popular desde há muito tempo, podendo entretanto estar associado aos Firbolg, que eram uma raça de anões.

O folclore popular diz que os Sidhe costumam ser vistos caminhando em horários próximos ao por ou ao nascer do sol. Há muitas estórias que os associam a caminhantes ou viajantes noturnos e de como eles eventualmente carregam consigo os mortais em suas jornadas. Há Sidhe que se portam como guardiões de locais sagrados, especialmente em lagos da Irlanda e Escócia. Outros dividem os Sidhe em categorias associadas em espíritos das florestas, das águas e do ar, como os elementais.

Com um olhar mais atento, podemos notar que os reis e rainhas do reino das fadas se assemelham aos deuses e deusas dos povos antigos ligados ao paganismo e ao culto da terra. A chegada do catolicismo à Europa afastou da visão os deuses dos celtas, que haviam se fundido aos deuses pré-gaélicos e com isso, legando os Sidhe e as Fadas aos planos mitológico.

Porém, devemos ter em mente que nem todos os Sidhe provém dos Tuatha de Dannan e nem todo Tuatha de Dannan é um Sidhe.

O interessante entretanto é que a crença nas fadas permanece muito viva entre nós (em todo o mundo, nas mais diversas culturas, e não apenas no norte da Europa) e é o foco de uma das linhas seguidas pela wicca.

Nota: Este artigo foi publicado originalmente para o premiado site Arte Antiga, em 01/04/2005.

Breves reflexões sobre os Anjos

Quando criança, minha mãe me ensinou a rezar para o anjo da guarda. Eu me ajoelhava junto à cama, juntava as minhas mãos e fitava um pequeno anjo da guarda de gesso, que minha mãe pintara de dourado: “Ich bin klein, mein Herz ist rein. Darf niemand drin wohnen als Jesus allein”. Por anos a fio, a ideia de um ser espiritual que me acompanhava e cuidava de mim quando meus pais não estivessem por perto me trouxe conforto e segurança. Muito tempo depois, vim saber que Sócrates tinha seu próprio daimon, que o aconselhava.

Foi ao final da minha adolescência que comecei a investigar qual seria a verdadeira natureza dos anjos. O anjo que expulsara Adão e Eva do Éden não correspondia às imagens daqueles anjinhos barrocos bochechudos e de cabelos encaracolados. Tão pouco com a descrição de Enoch ou Jacó. Três anjos entraram na tenda de Abraão e comeram com ele. Porque costumavam dizer “Não temas” quando apareciam aos homens? O nascimento de João Batista e Cristo Jesus foi anunciada às suas respectivas mães por anjos.

Por mais que estudasse e pesquisasse, sempre haviam pontas soltas. E outras questões foram surgindo: e o caso de Lúcifer, inicialmente também um anjo? E o que dizer dos anjos de John Dee? Qual o papel dos anjos para Martinez de Pasqually? Ou ainda, qual a importância dos anjos para a Magia?

Enfim, quem é o Anjo Guardião?

Este artigo é o resultado das minhas analogias, das correspondências que tracei ao longo das várias leituras que fiz ao longo dos últimos trinta anos, mas também, o resultado de experiências pessoais, vivências e meditações. Tratam-se apenas de algumas possibilidades e reflexões que, em nenhum momento, atrever-me-ia de chamar de definitivas. Afinal, tudo no Universo está em constante movimento e transformação.

A evolução da compreensão dos anjos

Foi na Idade Média que os anjos ganharam destaque na iconoclastia cristã, embora existissem na Bíblia há muito tempo. Eram representados ora com expressões doces ora severas, conforme a sua natureza, sempre com feições ocidentais. Caso não estivessem de armadura e empunhando espadas, trajavam invariavelmente mantos de cores claras, como branco, azul celeste ou amarelo.

anjo1É no período seguinte, no Barroco, que se tornaram as crianças assexuadas de cabelos claros e encaracolados, nuas com um pano cobrindo parcialmente o seu corpo. Contudo, estas representações em nada se assemelhavam àquelas apresentadas na Bíblia, imponentes seres de luz e fogo, a ponto de anunciarem: “Não temas!”.

Uma característica comum da arte angélica do Ocidente é retratá-los como figuras humanas idealizadas, com asas. Estas podiam variar, de pequenas e discretas a enormes e majestosas.

O Pentateuco é base de três grandes correntes religiosas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Os anjos tem, portanto, uma representação semelhante nestas três religiões.

Sempre foram considerados seres superiores que traziam mensagens de Deus ou executavam as suas ordens. O fato de serem profusamente representados nas igrejas cristãs bem como nas mesquitas muçulmanas atesta que faziam parte do conjunto de crenças e doutrinas daquelas religiões. Eram ainda parte do cotidiano das pessoas mais simples, que os reverenciavam anjos espontânea e naturalmente. Nos círculos doutos, debatia-se seu papel e importância.

Isto se dava porque, por um lado, os anjos sempre representaram a conexão da humanidade com o sagrado e por outro, tinham um papel protetor. São Miguel, por exemplo, era um arcanjo guerreiro encarregado de nos defender das armadilhas do demônio.

Assim, o reino angélico era considerado um aspecto integrante da natureza da mesma maneira que os demais reinos (mineral, vegetal e animal).

Seres alados com papéis semelhantes não são um privilégio destas religiões monoteístas. Na verdade, os judeus os tomaram de empréstimo quando de seu cativeiro na Babilônia. Os deuses da Suméria, em sua grande maioria, eram representados com asas (ou voando em máquinas que faziam grande barulho). Estes mesmos deuses surgem com uma diferença de cerca de 300 anos no Egito, com denominações diferentes. Em ambos os casos, combinam feições de algum animal com asas ou feições de alguma ave com capacidade para voar.

Na América Central, os principais deuses eram também representados com asas e há uma grande semelhança com os deuses egípcios e os da Suméria. E embora os deuses da mitologia grega não tivessem asas, podiam se deslocar instantaneamente para qualquer lugar que quisessem. O mesmo pode ser ditos dos deuses nórdicos.

Há ainda o caso dos elementais, seres associados à natureza e considerados os seus guardiães e protetores. Existem em praticamente todas as culturas ao longo do globo. Podem surgir como fadas, elfos, silfos e salamandras (ou devas, na cultura hindu). São considerados seres encantados, atualmente povoando as fábulas para crianças e os jogos de RPG. Eram considerados tão reais quanto os anjos representados nos templos.

Com o advento do Iluminismo e da Razão, paradoxalmente, a ciência mecanicista conduziu a humanidade ao obscurantismo e ao hedonismo. A devoção à natureza e ao sagrado cedeu lugar ao uso ilimitado dos recursos do planeta. Hoje em dia, discute-se sustentabilidade de olho nos lucros e nos possíveis benefícios individuais como se não houvesse amanhã.

Não olhamos mais para o céu em busca do divino, embora reste um certo sentimento de isolamento e abandono. É esta mesma Ciência, que constatou o nível hierarquizado de organização do Universo, que teve de admitir que desconhece completamente do que se trata uma tal de matéria escura, que preenche cerca de 90% do Universo. Em outras palavras, os cientistas entendem apenas cerca de 10% do Universo que veem com os seus instrumentos. Por outro lado, aqueles que percebem este mesmo Universo com o coração, tem uma compreensão muito mais ampla, completa e integrada de seu propósito e operação.

Kepler foi o último cientista piedoso. Em vida, através da matemática, esforçou-se para se aproximar de Deus através da compreensão do funcionamento do Sistema Solar. Em sua visão, o Universo era dotado de uma harmonia divina que a tudo preenchia. Newton foi o primeiro cientista racional, que deslocou Deus do centro do Universo para a sua periferia.

E hoje, se você disser que estava conversando com o seu anjo da guarda, receberá uma expressão irônica ou de pena no rosto de seu interlocutor. Para a Psicologia, os anjos são um desvio psicossomático da personalidade…

Principais referências sobre os anjos

Para este artigo, tomei como primeiras referências Dionísio Pseudo-Aeropagita, Tomás de Aquino e Hildegard de Bingen.

Dionísio viveu na Síria, no século VI e era de orientação cristã ortodoxa. Em Hierarquias Celestiais, discute as nove ordens angélicas como mediadoras de Deus e da Humanidade. Profundamente influenciado por Proclo, combina neoplatonismo e cristianismo, uma das razões pelas quais foi muitas vezes considerado herético. A maneira como organizou as ordens angélicas é a preferida pela maioria dos autores, sejam eles de orientação acadêmica como mística ou ocultista.

Tomás de Aquino viveu no século XIII, sendo reconhecido como um intelectual de grande poder com respeito à síntese das doutrinas teológicas. Summa Teologica é uma obra composta em 26 volumes enciclopédicos que registram a sua tentativa de reinterpretar o cristianismo à luz da Cosmologia de seu tempo, baseada em Aristóteles. Causou polêmica, uma vez que naquela época, a orientação agostiniana era a predominante. Seu principal mérito é sintetizar o saber tradicional sobre os anjos contribuindo, ao mesmo tempo, para novas linhas de pensamento a respeito do papel que desempenham.

Hildegard de Bingen foi uma monja beneditina do século XII. É mais conhecida por suas belíssimas obras de canto gregoriano, mas era, acima de tudo, uma profetisa visionária que, em seus escritos, combinou os doutrinas teológicas com as suas próprias experiências com os anjos. Suas obras são bastante minuciosas, embora recorrentes. De suas obras, interessam-nos de perto Scivia e Oratio.

A partir das descrições feitas estes autores, é possível deixar a mente divagar e estabelecer as analogias para encontrar os anjos em diversas passagens da História da Humanidade, embora retratados de diversas outras maneiras. Ou ainda, localizá-los nos mitos existentes ao longo do globo, dos quais farei menção apenas dos mais usuais.

Qual a sua origem?

Hildegard de Bingen afirma que os anjos provem do fogo original que é Deus em si mesmo. Diz ainda, que “rodeiam Deus em seu fogo incandescente, pois eles são luz viva.” Segundo ela, os anjos não tem asas, mas ainda assim, “são chamas que pairam sobre o poder de Deus”. Há uma passagem que leva a outras reflexões, quando diz que “Deus é a fonte viva original que emitiu as ondas”. A visão de Bingen a respeito dos anjos talvez se aproxime melhor de uma possível abordagem moderna, associando os anjos a algum tipo de energia radiante de fonte divina.

Tomás de Aquino prefere citar Dionísio, que os chama de mentes celestes e Isaías, que fala de um exército de maravilhas celestiais como os Céus, as estrelas e os anjos. Como associa os anjos tanto à inteligência como à luz divinas, também permite estabelecer uma relação moderna com algum tipo de energia radiante de fonte divina, como acima. Aquino não se perde tanto em supor as suas origens. Em nossos dias, os teólogos ainda discutem em que dia os anjos foram criados.

O mesmo se dá com Dionísio, que principia descrevendo a localização e o papel dos anjos. Porém, diz que “… eles participam em primeiro lugar e das mais variadas formas da Divindade…”, com isso praticamente afirmando que a criação dos anjos antecede a Criação e que esta ocorre por intermédio deles. Dionísio prefere descrever como as categorias angélicas estão organizadas e quais suas esferas de atividades.

Martinez de Pasqually, ocultista do século XVIII, em seu Tratado da Reintegração dos Seres Criados, diz que os anjos foram emanados por Deus antes do tempo, porém, sendo livres e distintos do Criador. Segue descrevendo como as várias categorias  angélicas de acordo com a sua finalidade. Os anjos eram, para Pasqually, de suma importância para seu sistema teúrgico.

Quem são os anjos? Para que servem? Como agem?

Uma das crenças mais fundamentais entre os judeus é que Deus é uma unidade absoluta em todos os sentidos, não havendo nenhuma maneira através da qual possa ser analisado em partes. Porém, como pode ele interagir com a multiplicidade existente na Criação? Os cabalistas afirmam que por esta razão Deus criou os mundos espirituais. Essencialmente, são os mundos espirituais que interagem com o Homem e não o próprio Deus. Um dos importantes componentes do domínio espiritual é a classe dos anjos.

Rabi Samuel bem Nachmani ensina que “toda palavra emanada por Deus cria um anjo.” Assim, quando nos referimos à palavra de Deus, estamos falando de sua interação com o mundo e que envolve principalmente o mundo espiritual. A força que percorre este domínio é o que chamamos de anjo.

Visto assim, os anjos são criados todos os dias. E por isso, alguns cabalistas propõem que existam dois tipos de anjos: os permanentes e os temporários. Os temporários foram criados no segundo dia da Criação; os permanentes, comparados aos pássaros, no quinto dia. Apenas os anjos permanentes tem nomes.

O Zohar ensina que toda e qualquer estrela tem um nome (Isaías, 40:27). Em Salmos (147:4), encontramos que “ele conta o número das estrelas e as chama cada uma por seu nome.” Os anjos nomeados foram associados às estrelas e planetas, criados apenas no quinto dia. Em outras palavras, foi necessário primeiro criar as estrelas e os planetas para então criar os anjos. As estrelas e os planetas correspondem a uma espécie de suporte físico necessário para que os anjos possam ter muitas tarefas e ainda manterem a sua própria identidade.

Dionísio se refere aos anjos como hierarquia e diz que seu objetivo é a “…maior assimilação possível e a união com Deus, tomando-o como um guia em toda a sua sabedoria sagrada para se tornar como ele, enquanto for permitido…”. Adiante, compara-os a espelhos claros e imaculados que recebem os raios da luz divina. Sendo assim, à medida que as hierarquias superiores recebem esta luz, derramam-na para as hierarquias que se encontram abaixo e assim sucessivamente até os níveis mais inferiores da Criação.

Este mesmo autor também se refere às hierarquias como “inteligências divinas”, tratando os anjos sempre em conjunto (hierarquias) e dentro de uma ordem ou organização, destacando que cada hierarquia tem uma atribuição no grande esquema divino. Dionísio diz: “Para a constituição sagrada da hierarquia, determina-se que alguns sejam purificados, outros purifiquem; alguns sejam iluminados, outros iluminem; alguns sejam aperfeiçoados, outros pratiquem a perfeição; assim a imitação divina servirá a cada um.”

Tomás de Aquino tem uma definição bastante próxima daquela que poderíamos encontrar atualmente: “O mundo corpóreo é inteiramente governado por Deus por meio dos anjos. Os anjos são parte do universo no sentido de não constituírem um universo por si mesmos, mas por se combinarem com a criação física para formar um mundo único, total. Isso, de qualquer modo, parece uma interferência provável da relação de criatura para criatura. Porque o bem total do universo consiste no inter-relacionamento das coisas e nenhuma parte é completa e perfeita separada do todo.”

Hildergard de Bingen, possivelmente em razão de suas experiências pessoais com os anjos, escreveu objetivamente que “Os anjos são uma luz da qual as esferas de vida dependeriam.” Enfatiza ainda a propriedade do espelhamento da luz divina, chamando-os de “seres-espelho”.

Porém, há uma passagem intrigante, onde diz que “…Deus criou a luz, iluminação invisível, que adere aos corpos celestes vivos e voadores: os anjos.” Esta luz invisível é conhecida dos místicos e ocultistas, pois qualquer operação mágica se processa por intermédio dela. Mas também é responsável pelas inspirações dos artistas, líderes e gênios da humanidade.

Com base no que foi acima exposto, pode-se concluir que:

Os anjos são inteligências ou seres espirituais criados por Deus com o propósito de refletir e irradiar a sua luz. Tudo indica que sejam profundamente especializados em suas funções, pois, segundo Tomás de Aquino, embora possam se deslocar instantaneamente, não podem ocupar ou estar dois locais distintos ao mesmo tempo.

Luz, porém, é informação, o que os torna mensageiros, numa espécie de “leva-e-traz” entre Deus e a Criação e vice-versa. O fato de existirem duas categorias de anjos, reafirma o caráter de um universo em constante transformação. É Pasqually que sugere que estes anjos tenham sido recolhidos ao Criador após cumprirem o papel que lhes fora atribuído. Visto assim, Deus criou o universo em sua Mente e os anjos executaram a tarefa.

Ainda, não há nada que impeça que novos anjos temporários não possam ser criados a qualquer momento. Ao contrário, é muito provável que o número de anjos temporários seja muito maior que o de anjos permanentes.

Um papel importante atribuído aos anjos é prestar louvor. Louvor nada mais é que se manter em contato com a fonte (da qual se nutrem) amorosamente. Cabe aqui uma rápida observação: como Inteligências, os anjos não tem poder de escolhas, simplesmente fazem o que é certo, pois sua função é disseminar o bem (a luz, informação) que refletem de Deus.

Lúcifer: o anjo que desafiou a Deus

Sempre tive problemas em compreender exatamente a dimensão deste personagem crucial para a existência da humanidade. Como Deus poderia criar um ser divino dotado de tanta beleza e atributos para que este incorresse em tão grave erro a ponto de ser banido? Em sua onisciência, não teria Deus previsto esta possibilidade, ter se antecipado e evitado? Talvez o mais provável é que, embora a decisão de Lúcifer fosse uma possibilidade, era também uma expectativa e Deus já tivesse em mãos um “Plano B”. Ou será que a arrogância de Lúcifer é o “Plano A”?

Ele é um Querubim, cujo papel é guardar o trono de Deus. É Dionísio que diz que “… para os hebreus, Querubins denota abundância de conhecimento e torrente de sabedoria.”

anjo2“O nome Querubins denota o seu poder, conhecimento e sua contemplação de Deus, sua receptividade do mais elevado dom da luz, sua contemplação da beleza de Deus em sua primeira manifestação e mostra que eles estão repletos de participação na sabedoria divina e servem generosamente, desde a sua própria fonte de sabedoria, àqueles que se encontram abaixo deles.”

Hildegard de Bingen diz que Lúcifer foi o primeiro anjo a ser criado, sendo adornado como um céu e como um mundo todo, com todas as estrelas, com a beleza da vegetação e com todos os tipos de pedras preciosas. Foi chamado de Lúcifer porque “… carregava a luz que dele emanava, que por si mesma, é eterna.”

Lúcifer costuma ser traduzido como “Aurora”, “Estrela da Manhã” (Vênus), e “Portador da Luz”. Ser portador ou guardião da Luz de Deus é uma atribuição importante, uma vez que a Luz é portadora de informação (conhecimento e sabedoria) sendo ainda um dos fios condutores da vida.

Tomás de Aquino atribui a Queda ao orgulho e à inveja de Lúcifer. A maior parte das estórias a respeito de Lúcifer convergem entre si. Porém, gostaria de destacar uma passagem reveladora que apresenta um detalhe que muitas vezes passa desapercebido: “E, no entanto, dizias no teu coração: Subirei até o céu, acima das estrelas de Deus colocarei meu trono, e estabelecer-me-ei na montanha da Assembleia, nos confins do norte me assentarei. Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.” (Isaías 14:13-14)

Portanto, Lúcifer não pretendeu usurpar o trono de Deus, mas sim ser semelhante a Ele. De fato, pretendia alcançar uma posição superior àquela das estrelas de Deus (anjos). O que foi comissionado ao Querubim da Guarda ungido proteger (guardar), ele desejou alcançar. Ele desejou subir acima das mais altas nuvens, a posição de semelhança do Altíssimo, portanto, ele desejou ser semelhante e não igual a Deus. Ser igual a Deus não é factível, mas, para o Querubim ungido, ser semelhante ao Criador pareceu plenamente possível.

O Filho de Deus e, posteriormente, Adão, foram criados à imagem e semelhança de Deus. A posição almejada de Lúcifer foi justamente esta, a de Filho de Deus, normalmente associada a Cristo.

Martinez de Pasqually comete o equívoco bastante comum ao apontar que um dos crimes dos seres espirituais (Lúcifer e seus seguidores) foi de quererem eles mesmos serem criadores de criaturas deles emanados.

Houve então uma grande guerra no céu e Lúcifer foi banido da presença de Deus, sendo atirado ao Abismo. Lúcifer surge novamente, agora como Saitan, como uma serpente à Eva, resultando na expulsão de Adão e Eva do Paraíso ou da proximidade de Deus, como já havia ocorrido com Lúcifer e seus seguidores.

Aparece novamente tentando a Jesus no deserto (Mateus 4), o que considero uma passagem significativa, pois não seria um anjo qualquer que teria o poder de dissuadir o Cristo de sua missão.

A queda de Lúcifer acarreta outras consequências, pois é a hipótese mais provável para a ocorrência dos Nephilins e dos gigantes descritos na Bíblia. O Pentateuco é uma obra adaptada de uma versão da Criação existente na Suméria e obtida por ocasião do cativeiro dos judeus na Babilônia. Os Nephilins tem o nome de Annunaki, significando “aqueles que do céu vieram”. São porém retratados como agentes civilizadores. Zecharia Sitchin possui uma extensa obra a este respeito e que merece ser consultada.

Podemos então considerar duas hipóteses:

  • Lúcifer era o plano A de Deus e seu papel, junto com suas hostes, era o de desenvolver a consciência através do contraste. Corresponde ao papel exercido pelo Demiurgo, sendo o agente criador da Terra. Nesta hipótese, o Demiurgo não é necessariamente mal pelo fato de estar associado à matéria. Estes anjos já habitavam a Terra antes da criação do Homem, mais tarde, acasalando-se com suas filhas e gerando os gigantes. Note que, apesar do Universo ser banhado em Luz, nós só a vemos quando encontra algum obstáculo. Lúcifer interferiu e ainda interfere nos rumos da Humanidade, através do dilema entre o bem e o mal.
  • Lúcifer era atributo de algum agente civilizador, dentro de um plano não necessariamente divino. Foram os colonizadores e eventualmente, os criadores da raça humana. Esta hipótese, entretanto, não atribui nenhuma natureza angélica a Lúcifer e portanto, não será desenvolvida neste artigo.

As estórias de Lúcifer devem ter sido marcantes, pois se encontram impressas em outras culturas, como veremos a seguir.

Leia mais: Três representações de Lúcifer/Saitan (Tarot).

O papel do Homem no esquema divino

Primeiramente, é preciso considerar que existem inúmeras hipóteses e teorias sobre o surgimento do Homem em nosso planeta.

A Teoria da Evolução, de Charles Darwin, é apenas uma delas e talvez a mais conhecida. No ambiente acadêmico coexiste ainda a Hipótese da Panspermia Dirigida, com suas variações. Sugere que o surgimento do Homem e de sua civilização seja o resultado de um experimento científico conduzido por Inteligências de capacidades superiores. Para maiores detalhes, sugiro a leitura do livro “O Instinto Geométrico”, de Horst Ochmann, capítulos 15 a 19.

Também conhecida como Hipótese Exógena, aponta uma intervenção exterior para o surgimento da espécie humana. Sob esta perspectiva, o mito bíblico da Criação pode ser entendido de uma maneira literal, correspondendo aos vários estágios de evolução do embrião que resultaram num ser biologicamente diferenciado. Estas etapas correspondem ao desenvolvimento físico-químico de qualquer célula ou conjunto de células, como conhecemos hoje em dia. Portanto, quando Adão e Eva se vestiram de peles, não o fizeram em razão de algum pudor, mas sim, em função do desenvolvimento de sua consciência (ou instinto) animal. A partir de Caim e Abel, a evolução aperfeiçoa-se com o uso de instrumentos agrícolas e metalúrgicos.

Pode-se perguntar quem seriam estas Inteligências. Anjos talvez? As tabuinhas de argila da Suméria se referem a agentes civilizadores que voavam. Quem sabe… Esta perspectiva torna o Homem criado por agentes intermediários e não diretamente por Deus, como sugere a Gnose, através do Demiurgo.

Quando o presidente de uma grande corporação diz “Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança”, dispara uma série de protocolos ao longo das cadeias hierárquicas que resultarão em um produto final saindo da linha de montagem. Porém, há ainda a distribuição e a comercialização deste produto, de maneira a resultar em lucros para a empresa.

Os protocolos nada mais são do que instruções padronizadas de processos que devem ser colocados em prática diante de certas condições medidas e predeterminadas. Não é assim que funcionam os anjos?

Considero então que, embora Deus possa ter dados instruções para que o Homem fosse feito, este não saiu de suas mãos, mas sim, de seus operários, os anjos. Atualmente, a Humanidade se encontra na fase de comercialização e precisa gerar lucros. E qual é a mercadoria de troca no Universo? Informação. Por esta razão é que somos conscientes dos processos que ocorrem dentro e fora de nós mesmos. Contudo, para completar o circuito, é preciso estabelecer uma conexão com as frequências mais sutis dos anjos-mensageiros.

Como somos feitos de matéria grosseira, é preciso antes purificá-la e regenerá-la para que a mente e a consciência possam retransmitir as informações obtidas e acumuladas ao longo de toda uma vida. E a curta duração da vida humana é forma de acelerar o processo de regeneração.

Consequentemente, o nosso papel é de coletar informações e espelhá-las para o divino, por via dos anjos que refletem a luz divina na mesma proporção que refletem aquela que vem dos Homens e permeiam a troca de informações.

Uma visão alternativa dos mitos

Uma vez que os anjos são considerados inteligências, podem assumir diversas formas e são mensageiros de informação, é possível localizá-los em outros locais que não apenas a Bíblia. Anteriormente, citei que os deuses alados foram tomados de empréstimo dos sumérios, quando do cativeiro dos judeus na Babilônia. Ocorrem também no Egito e na América Central.

Há muita literatura discutindo semelhanças entre os mitos da Suméria e do Egito. Os mitos greco-romanos, parcialmente derivados destes últimos, são também semelhantes aos mitos nórdicos. Muitos autores sugerem a existência de uma proto-História comum a todas as estas civilizações da Antiguidade.

Odin é também Wotan, pai dos deuses nórdicos. Sacrificou um olho para obter a compreensão última da vida. Segundo a lenda, trouxe a linguagem simbólica das runas, ao retornar a Asgard, o seu reino. Dentre seus filhos, encontramos Thor e Loki. Há várias correlações interessantes:

  • odin e lokiOs diversos reinos são representados numa árvore, denominada Ygddrasill. Todos os mundos são interconectados. O mundos dos Homens é Middgard, literalmente, jardim central ou do meio, semelhante ao Éden. O reino dos deuses se encontra acima (no céu), denominado de Asgard.
  • Os deuses viviam em guerra constante com os gigantes e os trolls. Gilgamesh é uma epopeia hindu que relata as guerras que ocorreram nos céus entre os deuses e, num segundo momento, entre os deuses e os homens. Estes episódios são encontrados também nas tabuinhas de argila da Suméria.
  • Loki é meio irmão de Odin. Diz-se que era belo e formoso. Odin o tolerava em Asgard porque era cheio de truques e um bom contador de piadas, era de fato um trapaceiro. Diz-se que sumiu por uns tempos e apareceu casado com uma giganta, com a qual teve três filhos monstruosos. Note que o nome Loki é semelhante a Luke e Lúcifer.

Com respeito à mitologia greco-romana:

  • Zeus adorava dar as suas escapadas para se acasalar com as ninfas e as humanas. Para isso, assumia as mais diversas formas para ludibriar as suas vítimas.
  • Os filhos das relações entre os deuses e as humanas resultaram nos semi-deuses, geralmente descritos como gigantes.
  • Num primeiro momento, os deuses ajudam os semi-deuses em suas missões; num segundo momento, esta ajuda se estende aos humanos. A ajuda sempre ocorre a partir de instrumentos mágicos.

Há semelhanças com os relatos dos Nephilins, sobre o casamento dos anjos caídos e de sua prole e, posteriormente, quanto ao papel de ajuda em ocasiões específicas. Foi um anjo que explicou a disposição do Templo de Salomão e como deveriam ser as duas colunas na entrada.

Diz a lenda que os Tuatha de Danaan eram um povo mágico que formou a Irlanda e a mantinha fértil, abundante e envolta em mistério. Dizia-se que era um povo amante das artes e da música em especial. Conheciam os segredos da cura através das ervas. São descritos como possuidores de um corpo diáfano. Num determinado momento da história, chegaram os Foimoré, outro povo mágico, envoltos numa bruma cinza.

Houve um grande combate e os Tuatha de Danaan se retiraram. Os Foimoré eram descritos com um povo alto e de pele brilhante, que parecia não tocar o chão.

Cabe aqui incluir as fadas, os elfos e os duendes, seres encantados que ocupavam a imaginação das crianças até uns vinte anos atrás. Responsáveis por cuidar da natureza, são também descritos como seres pequenos e diáfanos e podem estar de alguma maneira ligados à representação dos Tuatha de Danaan. Estes seres são os devas, na cultura hindu.

Para concluir esta parte, vale citar:

  • Aristóteles deve as suas conclusões ao seu daimon pessoal. Talvez seu Anjo Guardião?
  • Há vários fábulas árabes que falam dos gênios na garrafa que realizavam fatos prodigiosos ou falavam com os seus possuidores. Joana D’Arc foi inspirada igualmente por um anjo em sua campanha militar em favor do Delfim da França.

Em outras palavras, há muitas citações em lendas, mitos e fábulas que nos remetem a seres alados, que assumem outras formas ou tem o papel de zelar seja por um aspecto da Natureza ou por indivíduos. O acasalamento dos anjos ou deuses, bem como, as suas guerras, são temas que aparecem em culturas distantes umas das outras. É muito provável que sejam apenas maneiras diferentes de se referir a um mesmo conjunto de seres.

Anjos: guardiões, mensageiros e instrutores

À medida que ampliamos o que seja “Anjo”, deixando de percebê-los a partir das representações da arte medieval, constatamos que, com denominações diferentes, podem ser encontrados em várias outras culturas a partir de suas características.

O primeiro papel que desempenham é o de “prestar louvor a Deus e glorificá-lo.” Encontramos esta menção tanto em Hildegard de Bingen como em Tomás de Aquino com um de seus principais atributos. Também mencionam o fato de espelharem a luz ou a glória divina. De certa maneira, isto os torna semelhantes às estrelas, ecos do Big Bang.

Como vimos, os judeus tomaram os contos encontrados na Suméria e os adaptaram ao Deus único. Os Annunaki tornaram-se assim os anjos do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. Eles se referiam a Deus como “aquele que tudo criou”, sem eles mesmos se considerarem deuses.

Há um entrelaçamento dos deuses mitológicos, fazendo supor que sejam um único panteão. Estes deuses cumpriam as mesmas tarefas que os anjos, ajudando aos Homens em suas missões mais árduas, ensinando-os novas tecnologias e as artes. Quando não eram representados com algum tipo de asas ou animal que poderia levá-los pelos céus, tinham eles mesmos a propriedade de se deslocarem da terra ao céu e vice-versa.

Eventualmente, certos deuses se tornam patronos de alguma atividade ou guardiães de algum local sagrado. Tornamos então aos elementais e aos deuses protetores de certas florestas, morros, rios, lagos e cavernas.

Os celtas tinham uma divisão tríplice dos mundos, onde os seres espirituais habitavam o mundo superior e o inferior. Os povos germânicos e os nórdicos, tinham uma visão mais elaborada e detalhada mas, em essência, trata-se de uma visão muito parecida com respeito aos mundos. A religiosidade egípcia anterior ao século IV aec estava voltada para a vida após a morte. A tradução correta do Livro Egípcio dos Mortos é “O Livro para sair à Luz”, o que é bastante sugestivo.

Há várias passagens bíblicas em que anjos participam ativamente das atividades humanas, seja construindo e, em certas ocasiões, combatendo.

Entretanto, três características se destacam:

  • Guardiões de atividades específicas da vida humana ou acidentes geográficos; guardiões de certos indivíduos (anjo da guarda). De fato, cada ser humano tem o seu próprio Santo Anjo Guardião.
  • Mensageiros trazendo orientações, recados e instruções, muitas vezes específicas e particulares. Pode-se incluir aqui a voz da consciência, os insights e a intuição.
  • Instrutores ou civilizadores, nas artes e nas ciências.

anjo3Tudo indica que, como apontou Dionísio, os anjos estejam organizados em hierarquias. Tomás de Aquino escreve que os anjos são inteligências especializadas, portanto, cada anjo desempenha uma tarefa particular, para a qual foi programado. Portanto, um anjo guardião não desempenhará outro papel como de mensageiro ou instrutor.

O Homem tem a tendência de humanizar os seus deuses e possivelmente, o mesmo tenha ocorrido também com os anjos. Uma abstração indica que os anjos podem equivaler ao que os místicos denominam impessoalmente de “A Espiritualidade”. A união das duas perspectivas permite uma compreensão ainda mais abrangente e completa do modus operandi dos planos espirituais.

O Santo Anjo Guardião

O anjo da guarda é uma figura bastante popular em praticamente todas as culturas em nosso planeta. No mundo ocidental, trata-se de uma criança assexuada envolta em panos pairando sempre próxima à criança, protegendo-a dos acidentes próprios da idade. Para os povos celtas, geralmente é um elemental que desempenha este papel e, ao ingressar na idade adulta, será consagrado a um de seus deuses.

Para os sufis, trata-se do gênio pessoal, termo este também encontrado na Cabala. Nesta última Tradição, há uma clara distinção entre anjos e gênios, pois estes últimos se encontram mais próximos dos elementais encontrados na maior parte dos povos agrícolas da Antiguidade. Os gênios cumprem o papel de assistir aos nativos em seu desenvolvimento físico, emocional e psíquico e são distintos dos anjos, que se encontram em posição superior na escala angélica ou espiritual.

Gostaria de destacar este último aspecto uma vez que apenas consigo compreender o Santo Anjo Guardião como um anjo não permanente que se associa à alma quando esta decide por sua encarnação, acompanhando-a em seu nascimento. Sob esta perspectiva, também será papel deste anjo acompanhar o desencarne até planos espirituais mais elevados, onde será recebido por anjos perenes.

Ocultistas e hermetistas desenvolveram métodos, sistemas e rituais conseguir acesso ao Anjo Guardião ou ao menos, saber o seu nome (acredito não ser possível ter acesso a ele sem saber o seu nome…). Cornelius Agrippa e John Dee apresentaram sistemas baseados na Astrologia. A Cabala também possui um sistema que se utiliza da data de nascimento. Se você já teve alguma experiência com o seu Anjo Guardião, sabe que os métodos acima não tem nenhum valor e são possivelmente empíricos.

Em certas ordens iniciáticas, o acesso ao Anjo Guardião poderia (ou não) se manifestar depois de um conjunto de práticas meditativas e rituais regenerativos. Há muitos relatos de sucesso dentre pessoas que buscaram acesso ao Anjo Guardião por esses métodos, de longa duração e muito semelhantes entre si.

Tomás de Aquino afirma que os anjos possuem atividades especializadas, dedicando-se apenas a um tipo de tarefa. Dois anjos diferentes não podem realizar a mesma tarefa, embora possam colaborar para o seu êxito. É quase como dizer que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Dá-se mais atenção ao papel protetor do Anjo Guardião, entretanto, eu acredito que sua principal função seja de mensageiro.

Temos a tendência de personalizar os nossos deuses e anjos e, o mesmo se dá com o Anjo Guardião. Quando atende a uma invocação, ele parece nos envolver. Mas será que nos envolve apenas naquela ocasião ou estava sempre presente e nós é que tomamos consciência de sua presença naquele momento? É sempre acompanhado de uma sensação de calor agradável ou confortável.

E se ao invés de ter asas (como pede a nossa imaginação) este tipo particular de anjo seja um “duplo”, uma espécie de corpo energético-vibracional que nos envolve todo o tempo possibilitando a troca de informações entre o nosso córtex cerebral e os anjos-mensageiros do plano espiritual imediatamente acima do nosso? Assim, estaremos enviando informações constantemente; eventualmente, receberemos insights e inspirações de outras fontes (talvez até de outras pessoas que estejam envolvidas com a mesma questão, vivas ou não).

Algumas Ordens Martinistas preservam um ritual cuja origem se encontra nos Elus Cohen, de Martinez de Pasqually. O objetivo deste ritual era formar uma egrégora que ajudasse os anjos que assistiam aos nascimentos e aos desencarnes. A linha espírita kardecista original, também oriunda dos Elus Cohen, ensina que, por ocasião da morte, aquela alma será assistida por um anjo e, enquanto abandona o corpo a alma verá a sua vida num filme instantâneo, sendo assistida por este mesmo anjo até atingir o plano espiritual correspondente ao seu período em vida.

Este anjo que acompanha o indivíduo desde o seu nascimento até a sua morte pode ser comparado a um leitor ou intérprete de algum disco de memória, no caso a alma. A alma é referida como a sede da consciência. Como cada indivíduo é único e encarna com um conjunto de atributos particulares que tem a influência de suas vidas anteriores, será necessário um anjo que seja igualmente muito particular e associado apenas àquele indivíduo.

Uma das principais razões pelas quais acredito que seja um anjo não permanente é o fato do número de indivíduos encarnados ter se elevado vertiginosamente. Ao término de sua missão, o Santo Anjo Guardião será então reabsorvido.

Resta ainda um problema: segundo os judeus, apenas os anjos permanentes tem nomes. Um nome é importante porque vocaliza uma ideia, conceito ou força (energia). Mas um nome pode também ser uma chave. Havia um costume entre certas tribos que quando o menino ingressasse na puberdade, receberia um nome secreto, apenas sabido dele próprio e do xamã. Rituais semelhantes existiram em várias partes do nosso planeta e podem estar relacionadas ao nome do Anjo Guardião.

Em algumas ordens iniciáticas é ensinado que, após alguns rituais específicos para este fim, você receberá um “nome místico”, que deve ser guardado em segredo.

Diz-se que o nome secreto ou místico pode e deve ser empregado para proteção ou para acessar o conhecimento do Universo. Não basta você saber o nome da estação de FM que você gosta; se você não souber a sua frequência, terá de procurá-la no sintonizador. Porém, se souber o sequência numérica que compõe a sua frequência, poderá acessá-la facilmente. Neste caso, conhecer o nome do Santo Anjo Guardião é ter a chave de acesso aos planos espirituais seguintes.

O que você ganha? Acesso ilimitado ao maior banco de dados de todos os tempos (literalmente) em nosso Sistema Solar. Ter acesso ao Santo Anjo Guardião é ter acesso conscientemente às informações já processadas, em vias de processamento ou que ainda o serão, sem ter de depender exclusivamente de insights e inspirações.

É por isso que todos os sistemas de desenvolvimento espiritual começam com a expansão da consciência e objetivam os sonhos lúcidos. Estes dois estados são necessários para tornar a nossa recepção mais ágil através de nossas antenas de captação: o córtex cerebral.

Uma perspectiva científica para os anjos

Alfred Russel Wallace é contemporâneo de Charles Darwin e desenvolveu uma teoria científica em que a evolução, muito mais que a seleção natural, é guiada por inteligências criativas que ele mesmo identificava com os anjos.

Felizmente, estamos recuperando a ideia e os conceitos de que a Terra e todo o Universo sejam evolucionários e não entidades estáticas e inanimadas. É o mesmo que dizer que possuem algum tipo de consciência. Assim, os sistemas planetários e as galáxias funcionariam como um organismo vivo e inteligente, com propósitos definidos.

Porém, as distâncias no Universo são enormes, a luz irradiada pelo Sol leva cerca de oito minutos para alcançar o nosso planeta, o que passa a ser um empecilho para associá-la diretamente aos anjos. Note que a velocidade do pensamento é instantânea, o que permitiria que a esta comunicação interestelar ocorresse de uma maneira extremamente dinâmica.

Considere a possibilidade do Sol ser dotado de consciência. Hoje em dia, já é admitido que as nossas atividades cerebrais sejam reguladas pelos ciclos das manchas solares e as emissões eletromagnéticas que emana. De certa forma, a nossa consciência encontra-se associada a esta estrela. Se o Sol é consciente, porque as outras bilhões de estrelas não o seriam? Esta é exatamente a visão da Cabala judaica: as estrelas são inteligências e moradas dos anjos.

Os anjos são geralmente vistos como seres de luz refletindo a luminosidade do ser divino. É Tomás de Aquino que afirma que os anjos se movem instantaneamente de um lugar a outro, sem lapso de tempo. Porém, isso apenas seria possível por meio do pensamento e não de algum meio material que tem a luz como fator de limitação de velocidade.

Gostaria de retornar à ideia dos anjos como mensageiros e portadores de luz. O fóton se comporta ora como partícula, ora como onda. É encontrado em todo o espectro eletromagnético, embora seja comumente associado apenas à luz visível. Os fótons são partículas fundamentais que podem ser criados e destruídos quando interagem com outras partículas. Como portador de luz não poderia igualmente ser portador de informação?

Através da teoria das supercordas, onde o espaço e o tempo deixam de existir matematicamente como o conhecemos, podemos enfim fazer que o pensamento ou as inteligências viajem instantaneamente em dobras multidimensionais portando a luz (ou a informação) e materializando-se por meio do pensamento onde isto se fizer necessário.

A busca de uma “Teoria de Tudo”, que una a física relativista à quântica num único conjunto de leis ocupa os cientistas a décadas. As supercordas são hipóteses matemáticas e justificariam o papel atribuído aos anjos como fótons deslocando-se através das supercordas por todo o Universo.

Leia mais: Os Anjos Planetários.

Século XXI: o que nós podemos fazer pelos anjos?

Embora os anjos tenham deixado de fazer parte de nosso imaginário, eles se encontram muito presentes entre nós e, na realidade, nunca nos abandonaram.

Como anjos da guarda ou guardiões, há cada vez mais deles em nosso planeta em razão do elevado número de novas almas que chegam. É por este motivo que o desenvolvimento tecnológico tem crescido exponencialmente, uma vez que eles formam uma teia de troca de informações em nossa Terra.

Ainda assim, conseguimos destruir os recursos naturais dos quais dependemos ameaçando o equilíbrio e a harmonia de nosso lar, o planeta Terra. Várias espécies deixaram inclusive de existir. E isto se dá desde que passamos a nos considerar o “centro do universo”, sem nos deter no significado profundo do que Deus quis dizer quando nos tornou responsáveis por tudo o que há na Terra.

Porém, deve existir um plano maior para a Humanidade, tendo o desenvolvimento espiritual como um aspecto, sendo o outro o desenvolvimento científico e tecnológico. Quando Deus afirmou que seríamos superiores aos anjos foi em razão do atributo da autoconsciência, por meio da qual podemos avaliar de antemão o resultado das nossas escolhas e decisões. Este arranjo gera nova informação para o Universo, trocada ou transmitida através dos anjos-fótons que se encontram no plano espiritual seguinte ao nosso.

O maior avanço tecnológico dos últimos 30 anos se deu justamente no campo das comunicações. Cabe agora desenvolver a comunicação com estas esferas angélicas para que não apenas possamos transmitir conscientemente estas informações mas, principalmente, poder acessar um banco de dados praticamente ilimitado. Isto só será possível a partir do momento em que nos tornarmos efetivamente autoconscientes de quem somos e qual o nosso verdadeiro propósito em vida.

Para isto, há um caminho já traçado, descrito pelos anjos das esferas planetárias.

A partir de então, o Homem poderá se tornar um Ser Espiritual e ocupar o seu verdadeiro lugar no Universo, sentado junto ao Trono, como dizem as Escrituras, e então refletir a luz divina.

Colaboradores: Diego Viana e Rodrigo Basso.

Fontes de Referência:

  • Aquino, Tomás de: Suma Teológica, Vol. 2. São Paulo, Loyola, 2005.
  • Black, Jonathan: A História Sagrada. Rio de Janeiro, Rocco, 2013.
  • Fortea, José Antonio. Svmma Daemonica. São Paulo, Palavra e Prece, 2010.
  • Fox, Matthew e Sheldrake, Rupert: A Física dos Anjos. São Paulo, Aleph, 2008.
  • Gardner, Laurence. A Origem de Deus. São Paulo, Madras, 2011.
  • Howard, Michael e Jackson, Nigel: Os Pilares de Tubalcaim. São Paulo, Madras, 2008.
  • Howard, Michael: O Livro dos Anjos Caídos. São Paulo, Madras, 2011.
  • Kaplan, Arieh: Sêfer Ietsirá. São Paulo, Sefer, 2002.
  • Kaplan, Arieh: Imortalidade, Ressurreição e Idade do Universo. São Paulo, Sefer, 2003.
  • Ochmann, Horst: O Instinto Geométrico. Porto Alegre, Editora Sulina, 2002.
  • Pasquallys, Martinets: Tratado da Reintegração dos Seres. Lisboa, Edições 70, 1979.
  • Stewart, R. J.: The Mystic Life of Merlin. New York, NY, Aurora, 1996.
  • Thorsson, Edred: Northern Magic. St. Paul, MN, Llevellyn, 1998.

A conquista do Reino

Vivemos imersos num mundo com todos os tipos ruídos. Há o bombardeio constante de informações, muitas vezes, acima da capacidade de assimilação de nosso cérebro.

Existem ainda as preocupações diversas com as responsabilidades, tarefas e encargos comuns ao dia-a-dia: família, trabalho, carreira, estudos…

O tempo para o sagrado cada vez mais relegado para “quando tiver tempo…”. O indivíduo sedentário não é mais apenas aquele que não faz nenhuma atividade física ou mental, mas também, espiritual. É preciso reconectar-se com o Universo, onde reside a nossa Imortalidade, aquela que se encontra no plano da Alma, atributo divino.

E quanto mais nos envolvemos com uma realidade aparente, mais nos afastamos da realidade verdadeira. Os rosacruzes distinguem realidade de atualidade, esta última, a expressão da consciência consciente de si mesma e do universo que a rodeia.

Enquanto isso, vivemos a realidade dos sentidos que, de fato, é uma realidade convencionada, repleta de representações. E quanto mais imerge neste poço de ruídos, menos escuta a voz interior que o liga à totalidade da Unidade.

O ser torna-se único através de sua consciência, e não por meio das representações simbólicas de pertencimento e convenções sociais de diversos tipos e matizes.

O ser evolui, conecta-se com a sua própria imortalidade quando, partindo dos sentidos, transcendendo-os, indo além até a auto-consciência, que é tanto interior como exterior, pois abarca tudo à sua volta. A busca do iniciado surge a partir do desejo ou do inconformismo, como descrevi neste artigo sobre a visão do neófito.

O Quadrante do Despertar é tipicamente uma prática árabe e, possivelmente, sufi, trazida para o Ocidente pelos Templários. É encontrada em diversas correntes iniciáticas com o propósito de despertar a consciência para padrões mais sutis e elevados. Não tem nenhuma contraindicação, uma vez que depende exclusivamente do seu desejo e empenho em alcançar a comunhão com a supraconsciência.

A primeira prática é a mãe das demais e por isso, deve ser dominada antes de seguir adiante. Em outras palavras, o sucesso das práticas seguintes depende do êxito desta primeira. Trata-se de uma prática na medida em que deve ser praticada diariamente, três vezes ao dia.

O domínio desta prática permite a conquista do Reino ou Sephira Malkuth, da Árvore da Vida. Se ela não estiver devidamente alicerçada, o iniciado não conseguirá chegar a lugar nenhum na Senda escolhida.

PRÁTICA DA DIVISÃO DA CONSCIÊNCIA

Inicialmente, escolha uma posição confortável, pode ser em pé ou sentado. Depois de cerca de três meses, terá de realizar esta prática em movimento. Com o tempo, você terá de conseguir realizá-la a qualquer momento de suas atividades cotidianas, em qualquer lugar em que estiver.

Durante os primeiros três meses, procure realizar esta prática em horários fixos e determinados, numa posição que não estimule o relaxamento e o sono. Pratique por cerca de dez minutos de cada vez. Com o passar do tempo, você conseguirá dividir a consciência sempre que tiver vontade ou que a ideia lhe venha à mente.

Tome consciência de seu próprio corpo, de sua postura, da ponta dos pés ao alto da cabeça. Quando tiver conseguido, tome simultaneamente consciência da sensação no interior da mão esquerda. Vamos chamá-la de referência. A sua consciência está agora dividida em dois: postura e referência.

Acrescente a consciência da respiração. A sua consciência está agora dividida em três: postura, referência e respiração. É neste ponto que começa realmente a prática da Divisão da Consciência. Esta é uma etapa bastante difícil, pois os pensamentos tendem a interferir e diluir a atenção de sua consciência. Não se preocupe, retome calmamente às suas percepções, começando sempre pela referência.

De fato, o trabalho começa neste momento, isto é, quando a consciência está dividida em três. Persistência e constância são importantes nesta etapa, pois se os seus pensamentos o distraírem por mil vezes, retome mil e uma vezes, até dominar esta prática completamente.

Chegará um momento em que você conseguirá dividir a consciência automaticamente (ou inconscientemente). Você notará que o seu corpo sente menos fadiga das atividades diárias, a sua visão se torna mais cristalina, a sua lógica e raciocínio são mais lúcidos, há uma maior percepção da vida e de suas consequências, bem como, uma maior energia e vitalidade geral.

Neste ponto, você poderá dividir a sua consciência em quatro: postura, referência, respiração e muro da visão. O muro da visão consiste em uma visão desfocada do que há ao seu redor, sem fixar o olhar em nada em particular, sem se ficar em nenhuma imagem.

O muro da visão é percebido como ocorrendo interior da cabeça e não em um exterior qualquer. E por isso, esta parte da prática conduz muitas vezes a experiências sensoriais consideradas estranhas, como se a cabeça não fizesse parte de fato de seu próprio corpo. Então será preciso reconduzir o centro de gravidade de suas percepções novamente para o interior de sua cabeça.

Depois de praticar longamente a divisão da consciência em quatro, podemos passar a divisão da consciência em cinco, acrescentando a onda sonora. Da mesma forma como foi feito com o muro da visão, deverá tomar consciência do som em geral em não em particular. Tente se deixar penetrar pelo som sem tentar identificá-lo. Esta é uma etapa de grande dificuldade, mas você já estará tendo êxito se conseguir cessar o diálogo interior. Com o tempo, perceberá que até é possível dividir a consciência em cinco e, mais tarde, notará que é relativamente fácil: basta praticar. A expectativa é que o êxito seja alcançado depois de um ano de prática constante e regular.

Alguns iniciados levam a divisão da consciência até sete, acrescentando o olfato e o paladar.

A divisão da consciência é sempre acompanhada por um acréscimo da consciência. Por isso, poderá se desafiar caminhando no escuro ou por locais que desconheça. Ou ainda, à medida que ganhar confiança, notará que o campo de sua consciência se ampliou de tal maneira que poderá até desafiar as restrições físicas, como um obstáculo ou parede.

estresse

Cristo e Deus na Rosacruz e no Martinismo

Na AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz), aquele tiver se iniciado ao 1º Grau de Templo, encontrar-se-á apto a solicitar a sua afiliação à TOM (Tradicional Ordem Martinista). A TOM encontra-se abrigada sob a mesma estrutura da AMORC, proporcionando-lhe alguns benefícios importantes em relação a outras organizações martinistas.

E, de fato, alguns membros da AMORC acabarão se afiliando à TOM e encontrarão uma outra Ordem dentro da Ordem, uma vez que as diferenças entre os objetivos de ambas são perceptíveis, embora não irreconciliáveis.

Eu já estava adiantado nos estudos da Ordem quando me inscrevi no Martinismo. Fiz as Iniciações e estudei com afinco, participando das discussões sempre que possível. Porém, em nenhum momento abordou-se um ponto que considerava crucial: enquanto o deus dos rosacruzes é metafísico e impessoal, no Martinismo, é pessoal e tem nome. À época, responderam-me que o Martinismo se desenvolve a partir do misticismo cristão. Uma boa resposta, apenas para uma metade da questão.

Foi assim que me dediquei a pesquisar por conta própria a origem das duas tradições, ainda antes da obra de Christian Rebisse ter sido publicada. Compartilho aqui o meu roteiro e algumas conclusões, que são antes pessoais que definitivas.

Quanto à Ordem Rosacruz:

Particularmente, acredito que a origem tradicional da Ordem Rosacruz seja ainda mais antiga do que afirmam. Porém, há consenso de que sua origem moderna se dá por ocasião da publicação dos Manifestos R+C entre os anos de 1616 e 1617, atribuídos a Valentin Andreae. Os manifestos mostravam a necessidade de reforma da sociedade, de um ponto de vista cultural e religioso e, a forma de atingir esse objetivo através de uma sociedade secreta que a promoveria no mundo.

rosaA grande maioria dos personagens relacionados com o lançamento dos Manifestos Rosacruzes se originaram do meio luterano alemão. É de se notar que o próprio Lutero foi um dos primeiros a utilizar uma rosa-cruz (o Selo de Lutero, ou Rosa de Lutero) como símbolo de sua teologia.

O místico e teósofo luterano alemão Jacob Boehme e o educador Jan Amos Comenius foram contemporâneos do movimento rosacruz original do século XVII e também davam testemunho de uma mesma sabedoria. Comenius chegou a denominar a Unidade dos Irmãos da Boêmia-Morávia, da qual ele foi um dos líderes principais antes de seu desaparecimento, como Fraternitas Rosae Crucis. Além disso, ele tinha em Valentin Andreae sua primeira fonte de inspiração, considerando-o “um homem de espírito ígneo e de inteligência pura”, tendo-o contatado e recebido deste o archote para dar continuidade à tarefa iniciada.

fluddMuitos dos que responderam ao chamado dos manifestos rosacruzes, como Michael Meier e Robert Fludd, também se ligavam à mesma fonte de força espiritual. Portanto, em sua origem, a Ordem Rosacruz nascera entre os luteranos e, ouso afirmar, entre os pietistas, porque vários cientistas que a abraçaram faziam parte deste último grupo. Como cientistas, buscavam explicar Deus através de suas obras, e assim, restabelecer a harmonia entre o Homem e Deus.

Contudo, os ensinamentos da Ordem Rosacruz são religiosamente pluralistas.

A Ordem Martinista:

A origem do Martinismo ocorre também no meio cristão. Se pensarmos nas origens religiosas de Martinez de Pasqually, Saint-Martin e Willermoz, é mais fácil considerá-los protestantes, embora de denominações diferentes. Sua mística cristã se baseia na experiência pessoal, algo impossível no meio católico do século XVIII. O Martinismo, entretanto, aproxima-se bastante da gnose, especialmente após a influência de Jacob Boehme.

rcA Ordem Rosacruz oferece uma Alquimia Mental, remetendo ao Hermetismo neoplatônico e uma atividade muito mais especulativa que transformadora ou regeneradora. Sob esta perspectiva, a Ordem Rosacruz optou por um deus universalista e metafísico (apesar da cruz rosacruz guardar claras proporções e semelhanças com a cruz cristã) que, assim outras Ordens e inclusive o próprio Martinismo, eventualmente denomina Grande Arquiteto do Universo (G:.A:.D:.U:.).

O conceito de Deus como o Grande Arquiteto do Universo também surge muitas vezes no cristianismo. Ilustrações de Deus como o Arquiteto do Universo são encontradas em Bíblias desde a Idade Média e regularmente empregadas pelos apologistas e professores cristãos.

Teólogos cristãos como Tomás de Aquino sustentam que existe um Grande Arquiteto do Universo, a Primeira Causa, e que este é Deus.

João Calvino, em seu Instituto da Religião Cristã (publicado em 1536), chama repetidamente o Deus cristão de “O Arquiteto do Universo”, também se referindo aos seus trabalhos como “Arquitetura de Universo”, e em seu comentário sobre Salmo 19 na Bíblia católica Salmo 18 refere-se à Deus como o “Grande Arquiteto” ou “Arquiteto do Universo”.

gaduEntre os maçons, “Grande Arquiteto do Universo” é uma designação para uma força superior, criadora de tudo o que existe. Com esta abordagem, não se faz referência a uma ou outra religião ou crença, permitindo que maçons muçulmanos, católicos, budistas, espíritas e outros, por exemplo, se reúnam numa mesma loja maçônica.

O Martinismo também conta com o seu Grande Arquiteto do Universo, mas para seus propósitos no misticismo cristão, referencia-se em Yeoschuah (que se grafa como Yahveh, com a adição da letra hebraica Shin).

Conclusão:

Podemos então resumir:

  • Ordem Rosacruz: tem origem cristã, emprega um símbolo semelhante ao cristianismo, mas não tem foco em Cristo. Deus é metafísico (Cosmos, Universo).
  • Ordem Martinista: tem origem cristã, emprega métodos e linguagem do misticismo cristão e tem foco em Cristo. Deus é geômetra (Grande Arquiteto do Universo) e restaurador.

Sobre o Martinismo

louis_10É possível definir o que é Martinismo em poucas palavras? Sim, é. Porém, se o estudante fizer uma pesquisa na Internet, irá se deparar com várias organizações que adotam nomes semelhantes, cada uma com sua proposta, mais ou menos milagrosa. Afinal, tudo é marketing.

Os ensinamentos encontrados nas várias ordens que se denominam “martinistas” (muitas delas, autênticas) são diversos entre si. Para o estudante desavisado, isso pode parecer falta de coerência.

A verdade é que Saint-Martin não fundou uma Ordem. Com a partida de seu grande mentor, Martinez de Pasqually, para o Haiti, Saint-Martin desenvolveu uma maneira mais intimista de diálogo com divino, destituído de rituais complexos, com os quais não se afinava.

Como era uma pessoa reclusa, é natural que tenha buscado um caminho interior de reconciliação com o ser divino. Saint-Martin herdou de Pasqually a ênfase na necessidade da regeneração, do arrependimento, da purificação, discordando apenas dos métodos empregados.

Porém, o grande salto em seu pensamento filosófico se deu quando tomou conhecimento dos escritos de Jacob Boehme. O amálgama entre os ensinamentos de Pasqually, de sua própria visão de reconciliação (via interior ou via cardíaca) com as visões místicas de Boehme resultou nas suas melhores obras.: Ecce Homo, Homem de Desejo, O Novo Homem e Ministério do Homem Espírito. Em conjunto, tratam das quatro etapas necessárias para que o Homem volte a ocupar o seu lugar no plano da Criação. Juntos, estes livros contemplam um roteiro completo: “Purificai-vos, pedi, recebei e agi.

Foram Papus e Chabouseau quem, de fato, deram ao Martinismo a estrutura que hoje a norteia. Seus ensinamentos foram também organizados por ambos. Papus, por sinal não recebeu nenhum material informativo ou instrução, mas como estudioso que era, é provável que tenha compilado ensinamentos de diversas fontes, inclusive não originais. E é a partir do início do século XX que surgiram a maior parte das organizações martinistas. H. S. Lewis foi iniciado em duas organizações. Trouxe a R+C para os EUA e, com ela, também algumas das organizações nas quais se iniciara, uma delas a TOM. Talvez justamente por isso é que os manuscritos desta organização sejam os mais próximos dos originais de Papus e Chabouseau. As demais organizações que permaneceram na Europa tiveram os seus manuscritos destruídos ao longos das duas guerras que devastaram o continente.

De que tratam estes ensinamentos? A proposta original de Saint-Martin aproxima-se muito da Gnose. Mas, no começo do século XX, a maior parte das organizações iniciáticas se estruturou em torno ou a partir da Cabala, razão porque esta faz parte dos ensinamentos martinistas em nossos dias. Saint-Martin manteve um grupo informal onde discutiam questões místicas e filosóficas e há notícia de apenas uma iniciação.

Papus manteve em parte esta ideia, dividindo o Martinismo em três etapas com três iniciações, semelhante aos graus iniciais da maçonaria (há quem diga que eram quatro). Preservou as discussões e o caráter filosófico. Com estas referências, era natural pensar que o Martinismo se tratava de uma Ordem de acesso a outras organizações, como são os três graus iniciais da maçonaria. Em seu tempo, dentre outras Ordens, o Martinismo propiciava acesso à OKRC, de Guaita, com um formato acadêmico.

Em virtude das várias organizações martinistas atualmente existentes, não é possível afirmar que exista um padrão único de ensinamentos. Porém, todas são unânimes em afirmar que a TOM é a mais organizada e estruturada, com maior número de membros em todo mundo, graças ao patrocínio da AMORC. Hoje em dia, a TOM proporciona, através de seus manuscritos, grupos de estudos e discussões, um ambiente místico e filosófico importante não apenas para a construção de um Novo Homem, mas também para a renovação ou transformação da sociedade.

Maiores informações podem ser obtidas através do manuscrito de divulgação “Luz Martinista”, disponível no site oficial da AMORC.

Resenha: A Origem de Deus, de Laurence Gardner

O mundo ocidental parte da premissa da existência de Deus de uma forma automática. A maior parte dos indivíduos já nasce dentro de um sistema fechado do qual Deus é parte integrante, sem questionar quem é e porque de sua crença.

As principais religiões do Ocidente, judaísmo, cristianismo e islamismo, partem do Antigo Testamento para estruturar os dogmas que resultaram no sistema de crenças postulados e adotados.

A primeira pergunta do autor é se não houvesse o Antigo Testamento. Tomaríamos conhecimento da existência de Deus? Para responder a esta questão, faz uma análise de todas as estórias do Antigo Testamento, suas origens e correlações. Indica qual a personalidade deste Deus, que embora designado de misericordioso, se apresenta frequentemente impiedoso e muito cruel.

Mostra que a maior parte do que se encontra em Gênesis é uma transcrição e adaptação de estórias bem mais antigas, registradas em tabuletas na Suméria. Os judeus devem ter tomado contato com elas quando de seu cativeiro na Babilônia.

Um dos aspectos interessantes apontados pelo autor é que, no episódio de expulsão do Éden, há uma passagem que diz “agora serão semelhantes aos deuses”, no plural. Portanto, nesta narrativa, não há um único deus, como é postulado no monoteísmo. E outro ponto de destaque é que até Abraão, deus se manifestava fisicamente, tornando-se imaterial e uma entidade metafísica após este tempo.

Quando se refere à vida de Moisés, estabelece relações com outros mitos da região, muito mais antigos. Contudo, o autor, em referência a uma outra obra sua (Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada), prefere apontar a sua relação com o Faraó Amenhotep IV/Akhenaton.

Um dos focos de Gardner sobre o Antigo Testamento é apontar como as genealogias foram manipuladas para justificar a unção de certos reis. Esta questão é abordada repetidas vezes, toda vez que ocorre em alguma passagem da Bíblia, incluindo-se aqui o Novo Testamento.

No início do livro, o autor tenta estabelecer a identidade de deus. Relaciona El, dos canaanitas, com Marduk, dos babilônios, Enlil, dos sumérios ao Yahveh de Abraão e Moisés. Esta opinião não é partilhada por Zechariah Sitchin, considerado a maior autoridade em história da Suméria e tradutor dos tabletes de argila em escrita cuneiforme.

Porém o autor perde-se ao final quando escreve que Deus é uma crença necessária, fazendo alusões a Descartes e Pascal. Na verdade, o epílogo é um conjunto de sofismas.

As referências bibliográficas são extensas, como todo livro que escreve. No entanto, falta-lhe profundidade. Várias de suas proposições são contestáveis. Ao invés de responder a pergunta inicial, o autor prefere discorrer sobre as genealogias adaptadas conforme os interesses políticos da época.

Algumas de suas observações mostram-se intrigantes e mereciam outras perguntas. Porque deus se afastou dos judeus depois da época de Abraão? O que aconteceu com ele para que não caminhasse mais entre os homens? Para onde foi? Uma vez que Gênesis é uma compilação de textos muito mais antigos, estas respostas poderiam ser encontradas nos originais.

Pouca atenção foi dada ao fato de tanto o Antigo como o Novo Testamento contarem com uma fase final de redação dedicada ao Fim dos Dias (ou Apocalipse). Alguns profetas chegaram a entrar em contato psíquico com esta entidade imaterial divinizada. Enoque, porém, por duas vezes, subiu aos céus e esteve (via anjos) em contato com Deus.

Outro tema não desenvolvido adequadamente é o de Caim. Após a morte de Abel, Deus o marcou (e a sua descendência) para que não fosse morto. Qual seria esta marca? Deveria ser uma marca importante para que Deus pudesse acompanha-lo e aos seus, garantindo a sua sobrevivência. Seria algum tipo de manipulação genética? Para onde foram?

Há um lapso de 200 anos entre o final do Antigo Testamento e o início dos Evangelhos. Mas a esta altura, o autor já deveria ter pedido seu interesse em escrever, pois dedica pouco tempo a esta parte da Bíblia.

Como todo livro de Laurence Gardner, o ponto alto é a sua bibliografia. Ainda, os tópicos abordados. Contudo, não conte com uma resposta definitiva para a questão título da obra.

O Festival de Wesak

Ocorre sempre na Lua Cheia de Touro e é um das mais antigas celebrações ainda existentes.

wesakEste é o eixo do poder, onde as forças de conservação se unem àquelas de renovação. Portanto, tem em si a ideia de limpeza do antigo para preservar o que há de valor. Coloca em evidência uma importante estrela do céu, Aldebaran, o olho do Touro. Era também conhecida como “Seguidora”, por aparentar seguir as Plêiades no céu.

Embora esteja associado a Buda e Maitreya, alinha as divindades crísticas entre si, incluindo-se Jesus. Portanto, alinha entre si a espiritualidade do Oriente e do Ocidente. Tem-se a impressão da existência de uma camada de proteção cósmica. Em razão de tudo o que foi apontado, trata-se de um período de facilidades para todos os tipos de meditações e sintonizações, seja pelo planeta como pelo próprio Universo.

Assim, é extremamente recomendável manter uma atitude receptiva com relação às vibrações sutis compartilhadas por aqueles seres divinos. Meditações e sintonizações são de grande valor e costumam proporcionar experiências significativas com os outros planos da existência.

 

Criação e Queda

O tal do Pecado Original sempre foi de difícil compreensão e entendimento para mim.

Vamos aos fatos? Um tal de Deus ou Eterno, no original hebraico, criou o mundo conhecido, incluindo a fauna, a flora e o casal humano. Foram então deixados num Éden paradisíaco com uma única condição: não poderiam comer do fruto de duas árvores lá existentes. Uma das árvores era da Vida Eterna; a outra, do Conhecimento do Bem e do Mal. Seus frutos eram proibidos!

Quando criados, Adão e Eva, o casal humano, governavam os animais e falavam com eles. Aí surge Lúcifer em forma de serpente e estimula Eva a provar do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Após prová-lo, Eva o compartilha com Adão e ambos constatam que estavam nus.

Como sabemos, o casal foi expulso do Paraíso com um anjo deixado de guardião às suas portas. E assim surgiu o Pecado Original.

Primeira questão: será que foi mesmo Deus que criou o mundo? Em sua máxima glória, perfeição e pureza, para que o faria?

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É mais razoável considerar que ele tenha gerado as condições e os meios para que a Criação se processasse. Para isso, teria de contar com agentes intermediários que dessem cabo da obra. Esse papel caberia aos anjos, que não são mencionados no relato da Criação e são motivo de controvérsias entre teólogos. Este ponto de vista é compartilhado por muitas correntes místicas de origens e culturas diferentes através de seus mitos e cosmogonias. Na mitologia grega, por exemplo, os titãs são os verdadeiros agentes da criação de Ourannos. Considerados hereges, os cátaros preconizaram que a Criação se dera por meio do Demiurgo. Os platônicos e os cabalistas falam de uma Criação através de emanações sucessivas. Estas visões distanciam a criação imperfeita de Deus, perfeito. O Éden teria então o papel de ser um plano intermediário entre os planos divino e o material.

Conhecimento e Luz são intercambiáveis e parecem representar um único princípio. Deus não colocou aquelas árvores à toa. Simbolicamente, as árvores representam o caminho de ascensão aos planos divinos. Luz é energia e assim, o propósito de Deus foi ganhar energia através do uso do conhecimento. Se ele é perfeito, não há razão para ele não ter concebido a queda do Éden no plano da matéria. Desta maneira, os anjos que acompanharam Adão e Eva estavam cumprindo uma missão e não se rebelando, como quer o catolicismo.

Portanto, não há pecado, mas sim a necessidade de retornar à Luz. Afinal, as trevas são apenas a ausência de Luz.

A experiência mística, sob a visão de Paulo

O Cristianismo não começou como uma religião estruturada. Entretanto, Jesus deixa bem claro que não veio para mudar a Lei de Moisés, mas sim, para ampliar a sua compreensão. Paulo é igualmente considerado apóstolo, sem exatamente ter sido discípulo de Jesus. Ele teve uma visão na estrada para Damasco. Esta visão é considerada uma experiência extática, ficou cego por três dias, como também, sem comer nem beber, sendo posteriormente curado por Ananias (Atos 9:1-19). E assim se inicia a missão daquele que se tornou um dos pilares da teologia cristã, especialmente entre os protestantes.

Suas epístolas inclusive antecedem aos evangelhos em algumas décadas. E Paulo deixa claro que apesar de não ter havido nenhum contato físico, considera-se apóstolo de Jesus pela vontade de Deus (Cl 1:1), através de uma revelação. Saulo/Paulo era judeu e entre eles, experiências místicas que se manifestavam através de revelações era relativamente frequentes. Os profetas tinha revelações em maior ou menor grau. Entretanto, como a de Paulo, resultando num êxtase pelo contato direto com Deus, não há tantas. Mas as que são mencionadas são suficientemente fortes a ponto de se tornarem pontos de partida para novos grupos religiosos. Este é o caso especialmente de Enoch e de Ezequiel, que deram origem à mística da Mercavah.

É muito provável que Paulo fizesse parte de um destes grupos e estivesse familiarizado com essas experiências, pois quando descreve suas experiências ou a fonte de sua autoridade, costuma empregar uma linguagem muito próxima daquela empregada por aqueles grupos. Até mesmo quando critica a Moisés, que também teve uma experiência direta com Deus através da sarça ardente.

A principal diferença, portanto, entre a teologia de Paulo e a dos apóstolos diretos de Jesus, é a natureza da experiência religiosa. A de Paulo torna-se acessível ao gentio, enquanto a dos apóstolos permanece ainda muito ligada à religião judaica e os preceitos da lei mosaica.

É muito provável, embora não esteja evidente, que Paulo tenha tido várias experiências extáticas ao longo de sua vida, embora descreva apenas a primeira. Do contrário, não teria como manter um conjunto de ensinamentos práticos e místicos tão coerente e relativamente coesos para todas as comunidades com as quais manteve contato. Há um forte sentido de unidade em suas epístolas e apenas um indivíduo movido por uma fé transcendente poderia manter acesa a chama da conversão e da fé em Jesus por tanto tempo e com tanta intensidade.

Paulo é um lembrete que a religião não é apenas um conjunto de dogmas e ritos, mas também (e talvez muito mais) a busca da experiência da comunhão com os planos divinos através da revelação. O caminho é bastante simples: é do da pureza, aquele de despir-se de si mesmo.

Referência: O Misticismo Apocalíptico do Apóstolo Paulo, de Jonas Machado, Editora Paulus.